blusinha preta

achei que tinha parado de escrever aqui porque estava feliz.

estava é distraída.

feliz não é uma blusinha preta. não combina com qualquer peça.

ni fu ni fa

ni la perra enfermiza en un hueco profundo, ni la monja reglada en una nube del cielo.

roubaram meu olho

alguém roubou meus olhos. na verdade, apenas um, o esquerdo. meu olho, minha olheira e um pedaço do meu nariz estampam o perfil de camila no facebook.

é a foto que estampa o meu perfil. que eu tirei um dia do meu olho, achei bonita e publiquei. sempre estou de olho no meu celular e na carteira, mas jamais pensei que minha foto também estava vulnerável desse jeito.

certamente não aconteceria se minha foto de perfil fosse de corpo inteiro e de biquini…

o fato é: fui dormir carolina, jornalista são-paulina residente em são paulo que adora um bom copo de leite integral com chocolate.

acordei camila, funcionária de uma empresa de logística moradora de suzano que gosta de café a ponto de colocá-lo como “atividades e interesses” em seu perfil. agora também cito clarice lispector e traduzo letras de canções da alanis morissette.

o lado ruim é que, mesmo sendo camila, tive que vir trabalhar como carolina hoje.

o lado bom é que, pelo menos, camila também é(sou) são-paulina.

ps: camila já retirou meu olho do perfil dela e pediu desculpas. camila é bem simpática. o nome completo dela foi retirado a pedido dela :)

a origem da chatice

ando pensando no que tenho pensado e em como tenho agido e cheguei à conclusão de que sou uma chata.

ou talvez eu esteja chata, e minha condição seja curável.

mas a chatice começa a ferver dentro da minha mente como uma chaleira, reconheço que o pensamento é chato de galocha, digo a mim mesma que o melhor é enviá-lo para a lixeira, então vou lá e jogo tudo para o ar pela chaminé.

acho que darei uma chance à cachaça para tentar enxotar minha chatice, escondê-la num churros, dissolvê-la numa chuva de verão.

enquanto não acho a chave para achatar minha chatice acachapante, melhor encaixotar-me em uma chácara guardada por vários cachorros famintos

e um chacal.

tornei-me uma chata, fiquei chata pra chuchu. já sou capaz de deixar vossas chatices no chinelo.

Porque vivemos num mundo em que as pessoas não têm tempo para elaborar o que é do humano. Muitas vezes eu me deparo com essa situação no consultório. Vejo uma pessoa ali me pedindo antidepressivo porque não consegue mais trabalhar, não consegue mais tocar a vida. Eu sei que ela não consegue mais trabalhar nem tocar a vida porque é a sua vida que se tornou impossível, porque precisa de um tempo que não tem para elaborar o vivido. É óbvio que não é possível, por exemplo, elaborar um luto ou uma separação em uma semana e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Assim como não é possível viver sem dúvidas, sem tristezas, sem frustrações. Tudo isso é matéria do humano, mas o ritmo da nossa vida eliminou os tempos de elaboração. Essa pessoa não é doente – é a vida dela que está doente por não existir espaço para vivenciar e elaborar o que é do humano. Só que esse cara precisa trabalhar no dia seguinte e produzir bem ou vai perder o emprego. Então eu dou o antidepressivo e faço um acompanhamento sério, com psicoterapia, para que esse cara possa dar um jeito na vida e parar de tomar remédios. É um dilema e não tem sido fácil lidar com ele, mas é neste mundo que eu exerço a profissão de psiquiatra. Porque no tratamento da depressão, de verdade, a doença, de fato, é muito difícil obter resultados, mesmo com os medicamentos atuais. Assim como outras doenças psíquicas, quando são doenças mesmo. Os resultados são muito mais lentos – e às vezes não há resultado nenhum. A maioria das pessoas que estamos medicando hoje não é doente. E por isso o resultado é rápido e parece altamente satisfatório. Estas pessoas só precisam dar conta de uma vida que um humano não pode dar conta.

mensagem

pensei em enviar essa mensagem por e-mail para as poucas pessoas que me pediram ontem para levar lembranças à família, porque não poderiam fazê-lo pessoalmente. depois pensei em outras pessoas que não me pediram isso, mas que certamente gostariam de ler essa mensagem. e então pensei que deve haver ainda mais pessoas que talvez possam se sentir bem com essa mensagem, mas não tenho como saber porque não as conheço. por isso transmito essa mensagem aqui para quem quiser saber:

eu e a @nanamelon conversamos ontem com a marina, mãe do ale. dissemos que ela tinha criado um filho muito especial, que alegrou, inspirou e comoveu um grande número de pessoas por meio da internet.

ela respondeu que ele já nasceu especial, não foi preciso criá-lo assim. e que as pessoas da internet - mesmo as que nunca o viram pessoalmente - foram muito importantes pra ele no enfrentamento da doença.

também disse que ele viveu dois dias de muita felicidade após o transplante, que escreveu em bilhetes o quanto se sentiu feliz e vitorioso.

tudo azul, @alerocha

adoramos inventar problemas de mentirinha. olha como estou gorda. que raiva de quem masca chiclete de boca aberta. por que é tão difícil manobrar o carro nessa garagem? odeio quando o garçom traz o copo com gelo e limão, mesmo quando eu claramente pedi só gelo. quero mais dinheiro, mais tempo, mais coisas, eu quero.

inventamos problemas porque somos inseguros e, em grande parte, estamos entediados. investimos o tempo de sermos felizes alimentando obsessões inúteis porque não temos problemas de verdade ocupando nossas mentes a cada respiro.

porque os problemas de verdade, os espinhudos, os que não se resolvem porque dependem de muitos fatores, ou porque ainda não descobriram como podem ser resolvidos, nós evitamos.

empreendemos força que nem sabíamos que tínhamos em estoque para afastá-los da mente porque eles já estão fora do nosso controle.

no quarto do sexto andar do incor, onde eu me acostumei a sentar e ouvir o ale contar os detalhes da vida dele, e ele se acostumou a ouvir as nuances da minha, nossas conversas sempre tomavam rumos novos, mas invariavelmente se deparavam com o muro intransponível da hipertensão pulmonar.

a gente arriscava uma escalada, conversava sobre a espera do pré-transplante, sobre a madrugada do quase-transplante, sobre o protocolo do pós-transplante.

e então caía uma cortina de silêncio. o transplante viria quando infinitos fatores se alinhassem, e a ele só restava estar sempre pronto, mas não adiantava esperar por um evento sem data marcada. então ele aproveitava pra viver.

o inédito protocolo foi criado para oferecer a melhor chance a um pós-operatório tão delicado que nem no superlativo desse adjetivo caberia. então ele aproveitava pra viver.

e por isso voltávamos a conversar sobre a nossa sofrida carreira, o meu emprego novo, a repercussão da última coluna dele, o livro da tina fey, o bombom contrabandeado na uti, as fofocas sobre os bastidores da ilusória alta social media.

e aí as conversas, as dms e as mensagens de texto ganhavam cores distintas de acordo com a combinação dos nossos ~maus~ humores.

sou a orgulhosa co-autora de alguns tons de preto criados nessas sessões de descarrego mútuo. e ainda mais orgulhosa de, no fim de cada papo, sair azul.

azul de coragem de viver. esse era o sentimento mais forte que ele carregava dentro de si e nunca deixava de irradiar por aí. força, aliás, era a palavra-chave desse homem que era rocha no rg e na alma.

aproveito a ocasião para tornar público, mais uma vez, que quero doar todos os meus órgãos depois de morrer.

oberobreo - capítulo 31 - la tranquilidad

balança

pensar
refletir
contemplar
ponderar
medir
analisar
categorizar

versus

viver

rotina noturna

jantar
cinco minutos de telefonema
quinze minutos de observação silenciosa do
teto
ventilador de teto
luzinhas decorativas
recortes no mural
escovar os dentes
deitar
sonhar
dormir

vou colocando meus muros de concreto, arame farpado, tijolos, cortina, fumaça. e vendo como todos eles desmoronam. um dia desses faremos um piquenique no topo da montanha de detritos.

correios

passarinho, passarinho
dedos longos
bico afiado
voz profunda
olhos cerrados
( )falecido ( )mudou-se ( )endereço incompleto

canvas

o prazer de se conhecer
de novo desde o começo
no começo de uma vida nova
em que somos tudo aquilo que
gostamos em nós mesmos e
jamais aquilo que
nos odiamos por ter feito.