tudo azul, @alerocha

adoramos inventar problemas de mentirinha. olha como estou gorda. que raiva de quem masca chiclete de boca aberta. por que é tão difícil manobrar o carro nessa garagem? odeio quando o garçom traz o copo com gelo e limão, mesmo quando eu claramente pedi só gelo. quero mais dinheiro, mais tempo, mais coisas, eu quero.

inventamos problemas porque somos inseguros e, em grande parte, estamos entediados. investimos o tempo de sermos felizes alimentando obsessões inúteis porque não temos problemas de verdade ocupando nossas mentes a cada respiro.

porque os problemas de verdade, os espinhudos, os que não se resolvem porque dependem de muitos fatores, ou porque ainda não descobriram como podem ser resolvidos, nós evitamos.

empreendemos força que nem sabíamos que tínhamos em estoque para afastá-los da mente porque eles já estão fora do nosso controle.

no quarto do sexto andar do incor, onde eu me acostumei a sentar e ouvir o ale contar os detalhes da vida dele, e ele se acostumou a ouvir as nuances da minha, nossas conversas sempre tomavam rumos novos, mas invariavelmente se deparavam com o muro intransponível da hipertensão pulmonar.

a gente arriscava uma escalada, conversava sobre a espera do pré-transplante, sobre a madrugada do quase-transplante, sobre o protocolo do pós-transplante.

e então caía uma cortina de silêncio. o transplante viria quando infinitos fatores se alinhassem, e a ele só restava estar sempre pronto, mas não adiantava esperar por um evento sem data marcada. então ele aproveitava pra viver.

o inédito protocolo foi criado para oferecer a melhor chance a um pós-operatório tão delicado que nem no superlativo desse adjetivo caberia. então ele aproveitava pra viver.

e por isso voltávamos a conversar sobre a nossa sofrida carreira, o meu emprego novo, a repercussão da última coluna dele, o livro da tina fey, o bombom contrabandeado na uti, as fofocas sobre os bastidores da ilusória alta social media.

e aí as conversas, as dms e as mensagens de texto ganhavam cores distintas de acordo com a combinação dos nossos ~maus~ humores.

sou a orgulhosa co-autora de alguns tons de preto criados nessas sessões de descarrego mútuo. e ainda mais orgulhosa de, no fim de cada papo, sair azul.

azul de coragem de viver. esse era o sentimento mais forte que ele carregava dentro de si e nunca deixava de irradiar por aí. força, aliás, era a palavra-chave desse homem que era rocha no rg e na alma.

aproveito a ocasião para tornar público, mais uma vez, que quero doar todos os meus órgãos depois de morrer.

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